12 agosto, 2009

De braços bem abertos


Menino marca pistola como costumo dizer, travesso, melhor dizendo, irrequieto para lá do travesso, sorriso desdentado, cabelo espetado e uns olhos do tamanho do mundo, parecia que as pupilas eram feitas de um íman que nos obrigava a mergulhar naquele olhar. Abria os braços o menino e como festejava por entre as mesas do café, levantava-se, pulava e corria de um lado para o outro assim de braços abertos, de coração rasgado de alegria. Lembrei-me de uma canção divinal dos Creed, with arms wide open que me embalava assim ao som de uma música imaginada pela linguagem gestual do rapaz. De braços abertos mais parecia a águia vitória circulando pelas bancadas da história do enorme, a águia que ouve os espíritos invisíveis e agradece aos presentes, porque o Benfica está para além de um corpo, de um número, de uma vitória ou de uma derrota. Era golo do Benfica e o rapaz percebia isto tudo, assim num momento e demonstrava-o pelos gestos, era golo do Benfica como se fosse um momento de provar o improvável, como se o orgulho de ser puro fosse a prova dessa pureza, era golo do Benfica, assim como se fosse o rapaz a marcá-lo, como se fosse aquele sorriso desdentado a festejá-lo, como se fossem aqueles braços abertos um abraço aos espíritos eternos, que nos envaidecem e protegem, por um voo de uma águia, ou por uma euforia de um menino travesso. É golo do Benfica quando a liberdade de sermos únicos nos atravessa a alma pela forma de uma bola e entra pela baliza adentro, como se tratasse da glória. Entrando na gloria o menino acalmava-se, sentava-se, roía as unhas e esperava por um apito digno de um jogo do Benfica, pois o único em que acreditava era o apito final, aquele em que já não há nada a fazer, para o bem e para o mal. Como é que um menino que ainda mal se sentiu no mundo, se sentou numa cadeira com tamanha ansiedade que só os mais antigos deveriam sentir por saber o que se tem passado. Menino travesso e tão domado ao medo da injustiça dos homens, no entanto, como era grande aquele sorriso, como era de esperança aquele olhar, euforia? Qual quê, alegria imensa por pertencer à imortalidade, euforias são para as vitórias acidentais, quem sente o Benfica sente as vitórias e as derrotas de forma gloriosa, como era sábio o menino que legendava o seu olhar e a sua postura para que esta crónica nascesse, desvirtuada, com uma grande dose de loucura, quiçá inventada. Queremos lá saber, meninos travessos somos todos nós, que nos soltamos das amarras e das mentiras e voamos tão alto, pelas asas feitas de luz, por um grito de uma águia que nos lembra a criança que existe em nós, é golo do Benfica e o mundo deixou de existir, para lá dos olhos de menino...

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